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O Iceberg Invertido e a Crítica Literária



Ernest Hemingway fez uso do iceberg para teorizar sobre a escrita e defender que o autor pode omitir determinadas coisas do leitor de forma que como no iceberg, apenas uma parte de suas intenções estejam visíveis, enquanto o restante fica sob as águas. Com essa lembrança de Hemingway, podemos também fazer uso do iceberg para tentar compreender um pouco do processo da crítica literária nos dias de hoje. Só que nesse caso, parece-me mais apropriado pensar num iceberg invertido.

E o que seria um iceberg invertido? Primeiramente vamos fazer um exercício de imaginação. É de conhecimento de todos que o iceberg é um gigantesco corpo de gelo à deriva no mar que apenas uma parte sua está acima da superfície, enquanto sob as águas, fica toda a grandiosidade de sua estrutura. É justamente por ocultar sua forma completa que o iceberg desperta tanto interesse. Bom, mas este texto não é sobre icebergs, e a esse momento você já deve ter criado na sua mente a imagem de um iceberg perdido em alto-mar. Agora pegue este imaginário iceberg e o inverta. Pense que neste seu iceberg inverso a menor parte do corpo está sob as águas, enquanto uma gigantesca parte encontra-se sob a superfície. Pois esta nova imagem formada tem muita relação com a literatura e a crítica.

Já explico. As novas tecnologias e a facilidade de compartilhamento de ideias e pensamentos provavelmente vive seu ápice. Se no passado apenas a elite erudita tinha acesso aos meios de produção intelectual, hoje qualquer pessoa, da mais humilde a mais graduada pode publicar e compartilhar seu olhar sobre o mundo. Quem deseja escrever, não importa onde, encontrará seu espaço. Até mesmo a oralidade volta a ocupar determinada relevância ao passo que o vídeo tem sido uma forte ferramenta de comunicação e uso da linguagem. Se no passado poucos privilegiados podiam almejar publicar um livro, ou simplesmente falar do mundo e suas coisas, hoje se inicia com blogs, plataformas de autopublicação, redes sociais, e propriamente os livros. O resultado disso é que nunca se produziu tanto, porém, com essa produtividade em larga escala surge a pergunta de como filtrar ou encontrar aquilo que permanecerá no tempo? Pois uma coisa é certa, alguma coisa sobreviverá. E não é nenhuma adivinhação. Hoje convivemos com cartas, documentos e outras vanguardas e experimentações que entraram para o cânone das obras representativas da humanidade, portanto, seria ingenuidade imaginar que não restará algo desta nossa nova realidade. Algo que provavelmente ainda está por ser descoberto. E esse é justamente o grande desafio daqueles que praticam a crítica literária.

Há um iceberg inverso a ser observado. Sobre a superfície, totalmente às claras, um gigantesco corpo das coisas que estão sendo produzidas e criadas. Um corpo tão colossal, que ainda que esteja sobre as águas aos olhos de todo mundo, torna-se difícil conhecê-lo no todo. Além disso, a parte submersa, sua menor parte, a composta por tudo que já conhecemos, mas que muitas vezes está obscura ao grande público é composta por seus componentes canônicos os quais a crítica prefere seguir acompanhando por motivos dos mais variados. No entanto, faz-se necessário um trabalho em forma de mutirão para que minimamente possamos compreender a parte visível do iceberg literário. Nem mesmo sei se há contingente suficiente para tal exploração, mas ainda assim é algo que se faz necessário, porque este iceberg invertido observa a crítica literária como se esta fosse o Titanic, e sem dó alguma, se for ignorado pelos capitães, o risco de naufrágio é sempre muito grande. No caso da literatura o grande corpo da sua estrutura está sobre as águas, e é enorme, e para percebê-lo será necessário que os críticos aposentem por algum tempo suas roupas de mergulho, e mirem com atenção toda essa intensa movimentação que ocorre sobre as águas.

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