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O Jogo de vozes em Antônio: o primeiro dia da morte de um homem



    Há uma razoável quantidade de interesses que poderiam nos despertar para uma fala sobre Antônio: O Primeiro Dia da Morte de Um Homem (Record, 176 páginas), primeiro romance publicado pelo ator, dramaturgo e escritor Domingos Oliveira. Do impacto do envelhecimento diante da perda de amigos para a morte a sexualidade no que muitos hoje ainda chamam de terceira idade. Com seus mais de sessenta anos completados o protagonista do livro se embrenha por uma série de aventuras sexuais que certamente deixaria muito jovenzinho morto de inveja. No entanto, não consigo escapar do interessante jogo de vozes que o autor realiza nesta obra, conturbando ainda mais os limites tênues que diferenciam as vozes narrativas. Mas antes de entrar prioritariamente neste tema, façamos antes uma breve contextualização deste romance inusitado.
      O romance inicia a partir das reflexões de Antônio sobre a perda recente do amigo Eduardo. Nesse momento, e sempre quando o assunto retorna a pauta da narrativa, a morte surge sombria nas reflexões do protagonista num misto de incompreensão e inevitabilidade. São estes pensamentos que produzem a dúvida reforçada pelo título do livro que é questionar-se sobre quando se inicia a morte de um homem (de uma pessoa). No entanto, ao iniciar suas reflexões pela morte, não demora para tudo ser visto pelo contraponto da vitalidade  demonstrada na vida pós quarenta anos de Antônio. É depois dessa idade que ele volta a apaixonar-se perdidamente num encontro casual. Somos apresentados a esse romance intenso vivido pelo professor de antropologia e escritor pouco conhecido. Há presença, inclusive da ironia, quando Blue torna-se sem almejar, aquilo que pretendia Antonio. Com uma vida inteira e plena, Antônio viverá ainda triângulos amorosos e despejará sobre os leitores quentíssimas e improváveis noites de sexo. Se a morte aproxima-se por um lado, pelo outro, Antônio se permite viver tudo, ainda que reflita um bom bocado sobre suas experiências. Contudo, mesmo que a trama por si só já nos atraia a atenção e segure diante do livro, é nas escolhas narrativas que a obra merece ser observada com mais detalhes, pois Domingos Oliveira brinca com estes limites narrativos.
        E a principal questão a se observar, perceberemos, é a mescla improvável nas vozes da narração. Ao leitor, os limites entre uma narrativa em primeira ou terceira pessoa sempre é muito clara, independente do grau de instrução e letramento desse leitor. No entanto, em Antônio esses limites são derrubados, pois a despeito de uma aparente narrativa em primeira pessoa, como se quisesse afastar-se de sua própria narrativa, em determinados momentos Antônio tenta disfarçar saltando para uma narrativa em terceira pessoa como vemos abaixo num trecho que exemplifica bem essa altercação de vozes:

"(...) Antônio pensa cada vez mais depressa. Devia ter ido ao Caju quando Eduardo morreu, mas não fui.Os outros amigos certamente foram. Não fui porque não quis. Não quero mais ir a esses lugares. Tenho medo e direitos."

Um olhar sem o contexto dessa frase poderia indicar que há alguma coisa de errado na frase. Porém, esse não é o caso. Há uma escolha em realizar essas altercações de vozes durante toda a narrativa, ora um Antônio em primeira pessoa, ora de um narrador (também Antônio) na terceira pessoa. Isso inclusive fica dito ao longo do livro quando nos deparamos com a frase "esse texto, que talvez esteja sendo escrito por Antônio, talvez pelo autor de Antônio, demanda explicação." De fato, explicações seriam (ou são) necessárias para que compreendamos melhor essa narrativa, que alias, não alterca apenas as vozes de Antônio, mas que em determinados momentos concede a condução narrativa para as personagens femininas do romance. Contudo, tais explicações são aparentes e perceptíveis, caso o leitor atente-se para os detalhes da obra.
        E o principal detalhe é percebermos durante a leitura que estamos diante dum romance dentro de um romance. Algo próximo do que Lourenço Mutarelli questiona em O Grifo de Abdera como moda do "romance cíclico". Não que possamos ver em Antônio um romance cíclico, mas, possui ele um elemento essencial dos "romances cíclicos" que eu chamaria de narrador-autor. Esse é o caso de Antônio, um narrador que principia o romance pela primeira pessoa e durante a narrativa alterca para uma voz em terceira. A questão da problemática de autoria, narração e personagens tampouco passa despercebida pelo romance como demonstra o trecho seguinte:

 "Todo escritor diz que não é ele quem escreve, são os personagens. Que personagens têm vida própria, que quando as histórias são boas são escritas por eles. Atesto que é verdade. Antônio, Nadia e Manuela, Seu Cavalcanti, Blue, Esteban e outros que ainda não tinham rosto nem nome falaram. Eu não sabia que cabiam tantos pigmeus no meu estômago. "não pode parar! Quer parar, mas não pode! E nós. como ficamos? O que vai acontecer se não vivermos?" a balbúrdia crescia incessantemente."

Essa é uma confissão inconteste de que Antônio está a narrar sua própria história. É ele, tanto o narrador, quanto o próprio autor do romance. Isto fica ainda mais claro no diálogo a seguir em que se revela a estrutura da obra, e, também, reforça as justificativas para as múltiplas vozes presentes no livro.

"-Quero que você me ajude a escrever meu próximo livro. Um romance.
  - Autobiográfico?
  - Um misto da minha vida e de um amigo que você não conhece. Não sei como começar."

   O diálogo é travado entre Antônio e Nádia, e fica claro então ao leitor de quem é a autoria do romance. Ainda, e não meno interessante, dentre a ajuda que ele pede a Nádia, justifica inclusive que ele conhece pouco sobre as mulheres e ela poderia lhe ajudar nisso, e aí mais uma vez se justifica e comprova a intencionalidade de momentos, em que por exemplo, a narrativa é tomada por uma voz feminina, visto que o trabalho contou com a ajuda desta personagem, Nádia. 
  Portanto, se falo aqui deste elemento da estrutura da narrativa é porque ele representa algo fundamental à obra, bem como a explica. Tenho percebido nos romances contemporâneos reiteradamente esta busca total de afastamento por parte daqueles que assinam a capa dos livros. Nesse sentido, inserir dentro da obra um autor que narra parece que têm sido uma das principais alternativas, criando com isso aquilo que tenho chamado da narrador-autor, porque nesses casos há uma explicita confirmação na própria obra, relegando ao escritor apenas o papel de assinar a capa dos livros, e receber os royalties, obviamente. No entanto, como acontece em Antônio em que Domingos Oliveira abdica a autoria em nome de um Antônio que resolve narrar sua própria e inusitada história, veremos recursos semelhantes em obras, por exemplo, de Juan Pablo Villalobos e do próprio Lourenço Mutarelli já citado aqui. Além disso, há uma vantagem de que qualquer incongruência na obra será creditada tão somente ao narrador-autor, ficando o escritor ileso, pois nesses casos, é como se eles apenas psicografassem as tramas de suas próprias personagens. Contudo, não é a intenção deste texto se aprofundar nos pormenores deste método narrativo bem recente. Tocamos no assunto aqui para tão somente demonstrar a grande capacidade narrativa de Domingos Oliveira (Ok. Antônio), e de como essa mescla de vozes trabalha em prol da trama, bem como, justifica-se dentro da mesma. Temos aqui então, um romance ambicioso, que filosofa sobre a morte e o sexo, mas não sem deixar-se de valorizar a estética da obra literária, que a despeito de qualquer polêmica, ainda é componente essencial para distinção do que é, ou não é, literatura.








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