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Quando Delcídio se encontra com Dyonélio Machado



Independente a qual vertente política você pertença, é inegável o poder catastrófico do recente vazamento do áudio envolvendo o Senador Delcídio Amaral. Não há como não ficar impactado com o que se ouve na gravação, especialmente porque é uma declaração clara da gravidade do estado de saúde de nossa república. Mas para além de todos os problemas já falados sobre o assunto, bem como todas as percepções sensoriais que nos causa tal diálogo, não pude deixar de traçar paralelos com o interessante romance de Dyonélio Machado, Os Ratos.

A forma furtiva, mas descarada e consciente em que se trata a possível fuga do país de um indivíduo em situação delicada na Operação Lava-Jato certamente promoveu recordações em leitores da obra de Machado. Na conversa real, Delcídio e sua trupe lembram um bocado o modo como Naziazeno, Alcides e Duque se reuniam em bares de Porto Alegre para preparar seus  trambiques e golpes. Em ambientes lúgubres e perniciosos os três habitavam uma esfera que cada vez mais parece ser o caso da política brasileira, na direita, ou na esquerda. A sensação presente no romance é amplificada mil vezes na referida gravação.



No romance, uma das grandes virtudes de Dyonélio Machado é justamente essa ambientação noturna e criminosa (mesmo quando em plena luz do dia), bem como a caracterização zoomórfica de suas personagens, que de uma forma bastante crítica, transforma-os em ratos em seus paletós cinzentos e com suas migalhas de pão, agindo de maneira condenável e criminosa estabelecendo ligações que ultrapassam a linha entre o legal e o ilegal, entre o ético e o antiético. E o romance é bastante eficiente ao revelar tais comportamentos indecorosos, comportamentos que cada dia mais, parece ser a regra e não a exceção no Brasil, especialmente no universo da política.

Por isso, Delcídio se encontra com Dyonélio na medida em que seus trambiques e tramóias são revelados diante de toda uma nação que assiste em seus comportamentos situações que nos fazem relembrar a ficção de Dyonélio Machado. O resultado é acachapante (ou ao menos acho que é, ou espero que seja); provoca choque e indignação (ou deveria). Certamente se Dyonelio fosse escrever hoje, Os Ratos, deveria preparar Naziazeno e seus comparsas para esse novo mundo, cheio de olhos, celulares e gravadores. 

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