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Os problemas de Mulheres de Cinzas, de Mia Couto



     Mulheres de Cinzas, de Mia Couto (Companhia das Letras, 342 páginas) é o mais recente livro do autor moçambicano (vencedor do Prêmio Camões 2013) publicado no Brasil. Nele, que é o primeiro romance da trilogia As Areias do Imperador, Mia Couto, conforme explícito na contracapa do livro pretende "remontar a guerra que assolou o sul de Moçambique no fim do Século XIX". Contudo, à margem dos grandes êxitos do autor, não poderia de deixar de falar os problemas encontrados na obra, mas antes de adentrá-lo, discutamos aquilo que há de excelência na obra.
     Com uma prosa fluente e elaborada, o autor constrói a partir de dois distintos pontos de vista a reconstrução histórica sobre o processo de colonização portuguesa em Moçambique. Isto é feito através da voz narrativa em primeira pessoa da negra Imani, uma mulher cuja identidade está em conflito, de um lado sua própria cultura, de outro todo o aprendizado junto com os padres portugueses. Essa indefinição sobre qual lado da disputa ocupar aumenta os perigos diante de uma guerra travada com violência e sangue. O outro ponto de vista se dá através das cartas do sargento Germano de Melo, um homem degredado ao ermo de África, que assim como Imani vive em intenso questionamento sobre as ações dos portugueses no referido processo. 
     
É com esses olhares conflituosos que a trama se desenvolve, questionando em grande parte a guerra, e não deixando-a de demonstrá-la como algo insano e injustificável. Na riqueza narrativa, o leitor ainda terá pela frente uma cultura rica e cheia de elementos que nos cativam e nos fascinam, ao mesmo tempo que nos apresenta um novo olhar que descortina um pouco mais da África. Além disso, no processo da narrativa encontraremos elementos que se interligam com a própria história do Brasil traçando paralelos que reforçam o menosprezo dos portugueses sobre a cultura presente entre seus colonizados. Desta forma, este é mais um dos elementos que tornam a leitura deste romance, "obrigatória" em terras brasileiras. No entanto, a despeito de todas suas virtudes e relevância, não podemos deixar de observar a presença de problemas na obra de Mia Couto.
    Com uma ambição tão forte como a de "remontar" um período histórico importante deveríamos pressupor estarmos diante de uma obra de cunho realista num romance histórico, porém, Mulheres de Cinzas já chega ao leitor numa estrutura clássica dos romances despretensiosos em que há a presença de uma casal separado por suas distâncias sociais (e étnicas) cujo amor impossível aflora e lhes atormenta com sua impossibilidade. Esse é o caso de Germano e Imani; No entanto, não seria este um problema tão grave ao romance, ainda que o coloque mais próximo de um universo dos comuns. A grande falha, ao menos na visão deste que vos fala é as duas vozes narrativas que destrincham a narrativa.
     Relembrando mais uma vez a ambição da narrativa, convém lembrar que para melhor atingir seus objetivos faz-se necessário a presença de autoridade em seus narradores. Nesse ponto exato da obra é que a coisa toda se torna mais discutível, porque tanto Imani, quanto Germano de Melo carecem de certa autoridade num romance que exigiria certo grau de realismo. 
     No caso de Germano de Melo seu ponto de vista surge através de suas desencontradas cartas ao Conselheiro José d'Almeida. Num tom intimista estranho ao tipo de correspondência (mesmo que essa intimidade seja assumida e confessada posteriormente), as confidências e revelações do militar desiludido podem soar pouco convincente, deixando a sensação de estar meramente a serviço do romance do que a uma reconstituição histórica. Além disso, a forma de interlocução e a presença de uma série de diálogos relatados nestas cartas corroboram um pouco mais para que tais cartas soem muito mais romanescas, do que um documentos que complemente a reconstrução da história, ficcional, ou não. Um exemplo, a meu ver, de como as cartas de Germano de Melo mostram-se pouco convincentes é compara-las às cartas e documentos que compõe Drácula, a deste outro, nos convencem muito mais do que as de Melo, ainda que não haja do romance de Bram Stoker a tentativa de convencer da realidade de sua personagem. Todavia, sendo condescendentes, os problemas das cartas de Germano de Melo poderiam ser dirimidos, mas o mesmo não podemos falar da voz de Imani.
     De modo geral, no romance histórico temos a inserção de personagens ficcionais num ambiente histórico com personas reais. E talvez seja isso que o leitor de Mulheres de Cinzas aguarde, entretanto a voz narrativa de Imani perturba o equilíbrio da narração. Acontece que para uma narração em primeira pessoa temos uma série de restrições ao narrador, contudo, ao longo da narrativa Imani vai revelando-se uma figura etérea com uma onisciência improvável para seu tipo de narrador, como podemos perceber no trecho abaixo:

"Naquela excursão ao cemitério Mwanatu cumpria um mando. Desde seu regresso a casa um sonho o assaltava todas as noites. Nesse sonho sucedia o seguinte (...)"

Nesse trecho em particular temos uma amostra da capacidade de Imani narrar passagens em que não há garantia de seu testemunho, além disso, no prosseguimento do excerto ela penetra os sonhos do irmão e os reconta nos mínimos detalhes; Da mesma forma, há outros momentos em que a onisciência da narradora Imani é revelada como quando ela torna público até mesmo os pensamentos das personagens do livro, com em

"É o que dizem sempre, pensou o sargento"

    Portanto, vejamos que a participação etérea de Imani não pode ser negada e a onisciência de sua voz é da mesma forma, inegável. Obviamente, isso talvez não se configurasse com problema num romance ou em obras de um realismo fantástico, por exemplo, contudo, ao não nos esquecermos das ambições desta obra e da sua proximidade com o romance histórico, a credibilidade de seu narrador (ou narradores) é essencial, porém, no caso de Mulheres de Cinzas, seus narradores não são figuras libertas de suspeição, e com isso, a autenticidade do romance se esmaece diante das fragilidades de suas vozes; Enfim, não há qualquer desejo deste texto desmerecer a obra (na verdade, a intenção é o contrário), entretanto não poderia realizar uma leitura incapaz de perceber pormenores que fazem valer a discussão literária. Assim, esta é uma posição, certamente haverão outros olhares discordantes, contudo, não é de hoje que a questão dos narradores se faz presente, e por sua natureza essencial à obra literária, este é um tipo de apontamento que não pode deixar de ser feito. 

     

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