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Os problemas do "retratos da leitura no Brasil"



Divulgados na semana passada pelo Instituto Pró-Livro, dados da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil" em sua quarta edição apontam números em evolução, como no caso do aumento do número de livros lidos por brasileiros a cada ano, que ficou em 4,96. Este é um dentre tantos números da pesquisa que tenta realizar um verdadeiro raio-x nos hábitos dos leitores. Contudo, há concepções e resultados deste retrato que no mínimo causam curiosidade e dúvidas, e noutros, como a própria concepção de leitor, poderíamos dizer que é plenamente discutível.

Para a pesquisa, considera-se leitor quem nos últimos três meses tenha lido no todo ou em partes no mínimo um livro. Pensar num sujeito que tenha lido as partes de um livro como leitor é um tanto temerário, que dirá então se nos debruçarmos sobre os diferentes graus de letramento destes leitores. Além disso, isto parece-me mascarar um pouco tal retrato, além de que poderíamos nos perguntar quem é de fato leitor, alguém que tenha lido um livro inteiro nos últimos doze meses, ou o leitor concebido pela pesquisa? 

Esta concepção de leitor, inclusive, corrobora com o fato de ser a Bíblia a leitura mais recente mais citada pelos leitores como último livro que leu ou está lendo. Excluindo-se os religiosos mais fervorosos não vejo ninguém por aí dizendo que está lendo a Bíblia, entretanto ela repetidamente é a mais lembrada, o que bem poderia ser explicado pelo fato de que é uma leitura que muitos os fazem por trechos, buscam uma "iluminação", uma mensagem, e aí confrontados com a pesquisa, ainda que não leitores, leram versículos ou pequenas passagens da Bíblia. Obviamente, nesse caso entro no campo das suposições, entretanto, acredito que essa concepção utilizada permite tais equívocos construindo leitores muito hipotéticos.

Da mesma forma, outro detalhe que chama a atenção é a divergência entre as principais leituras citadas na pesquisa se contraposta aos livros mais vendidos ao longo de 2015 que desaparecem, talvez na grande fragmentação encontrada nas citações, visto que, por exemplo, Muito Mais que Cinco Minutos, enquanto foi o 5º livro mais vendido do ano segundo o Publishnews, na pesquisa não fica entre os 10. O mesmo vale para as obras do Edir Macedo e do Christian Figueiredo. Entre os bestsellers internacionais Grey não surge na pesquisa destacadamente, enquanto Cinquenta Tons de Cinza está entre os mais lembrados.

Todavia, são estas questões que me atiçam a curiosidade. Problemas (ou nem tanto) que nos colocam a observar com criticidade este levantamento que tem buscado traçar o perfil dos leitores brasileiros e que nos fornece dados preciosos, mas que no entanto, devem também ser discutidos, creio que especialmente nessa concepção de leitor, para que assim o levantamento se aprimore cada vez mais.

Veja pesquisa íntegra.


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